13/03/2009
Rede elétrica inteligente
Divulgação Carbono Brasil
Energia elétrica pré-paga, uma rede autônoma capaz de consertos remotos, o uso mais racional de usinas, eletricidade mais barata e ainda assim com mais qualidade. Esses são apenas alguns dos benefícios que podem ser conseguidos com a implantação do conceito de Smart Grid, uma rede elétrica inteligente baseada na troca de informações entre consumidores e empresas de fornecimento de energia.
Hoje praticamente inexistente, essa comunicação consumidores-fornecedoras pode ser estabelecida por diversas tecnologias que estão sendo desenvolvidas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
Existem, por exemplo, os medidores eletrônicos inteligentes, que são instalados nas residências e informam às geradoras, em tempo real e de maneira exata, para onde está indo a energia. Também estão sendo criados softwares, a Google anunciou nesta semana o programa PowerMeter, que recebe informação de medidores e dispositivos elétricos e, depois, envia um relatório aos usuários dos computadores, que lhes indica como estão utilizando a energia.
Com toda a informação que seria conseguida com os consumidores, as empresas geradoras poderiam planejar toda a rede elétrica de forma mais eficiente, chegando ao ponto de evitar a construção de novas usinas. Segundo o relatório Smart Grid: put it to work, publicado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, se a rede elétrica norte-americana fosse apenas 5% mais eficiente isso equivaleria, em termos de emissão de dióxido de carbono (CO2), a tirar de circulação 53 milhões de automóveis.
“A Smart Grid é todo um conceito que reúne diversas tecnologias e que objetiva uma rede elétrica mais eficiente e autônoma. Para isso, é fundamental a obtenção de informações por parte das empresas geradoras de cada consumidor”, afirma o professor Antonio Marcos Ferraz de Campos, coordenador do Curso de Tecnologia Elétrica da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie e responsável pelo laboratório NOTRE2, que dá suporte para projetos de implantação de soluções Smart Grid e trabalha na adaptação e na certificação de equipamentos e tecnologias para a rede elétrica brasileira.
Benefícios
Uma das inúmeras vantagens (veja quadro no fim da matéria) da Smart Grid seria a possibilidade da venda de energia pré-paga. O cliente fecharia um contrato com a fornecedora de energia e se comprometeria a não ultrapassar determinado consumo nos horários de pico, por exemplo. Como a fornecedora, com os medidores inteligentes, tem acesso a cada residência, fica fácil fazer valer o contrato. Assim, além de ser possível a venda antecipada de energia mais barata, poderia ser evitada a construção de novas usinas ou o uso da capacidade máxima de uma fonte.
“Toda a rede hoje tem sua capacidade voltada para a necessidade de manter o fornecimento nos horários de pico. Se a fornecedora souber que tantos milhões de pessoas, que já assinaram o contrato pré-pago, não vão utilizar tanta energia nos horários de pico, não há necessidade de se gastar em novas usinas, apenas administrar as já existentes. Isso é ótimo tanto para o bolso das empresas quanto para o meio ambiente”, esclarece Campos.
Além disso, a rede será de tal forma informatizada que será possível para a empresa saber exatamente onde ocorreu um problema. “Hoje a manutenção da queda de força só acontece quando o consumidor liga reclamando. Só a partir daí que a empresa sabe onde está o problema. Com a Smart Grid não só o reconhecimento do problema é automático, como ele pode ser, em alguns casos, corrigido remotamente”, diz Campos.
Há ainda ganhos no que diz respeito ao uso descentralizado da rede, redução de custos de manutenção, o aumento da qualidade da energia e de sua estabilidade. A Smart Grid possibilita também a promissora oportunidade das fornecedoras comprarem energia produzida pelos próprios consumidores.
“O maior controle de tudo que se conecta a rede, o plug and play, isto é, a identificação automática de todas as baterias, painéis solares, automóveis elétricos ou qualquer outro dispositivo que consuma ou gere energia, torna fácil para a fornecedora estabelecer programas de compra e venda de energia e outras atividades”, comenta Campos, que alerta que ainda existem limites técnicos na disponibilização de energia gerada em residências ou pequenas usinas para toda a rede, e que isso envolveria um ajuste fino do sincronismo do sinal, mas que deve ser um procedimento comum num futuro não muito distante.
Projetos
Existem por todo o mundo diversas experiências sendo realizadas com o objetivo de colocar em funcionamento o conceito de Smart Grid. Tanto o governo dos Estados Unidos como a União Européia estão dando incentivos para a construção e uso da rede inteligente.
Nos EUA, o destaque é a cidade de Boulder, no Colorado, que deve se tornar a primeira Smart Grid City no país. Cerca de US$ 100 milhões estão sendo investidos na instalação de novos medidores, na implantação de sistemas de informática e na modernização da rede.
Já na Europa, a Itália aparece na frente na implantação de tecnologias que buscam o aperfeiçoamento da rede. Entre 2000 e 2005 a Enel SpA, empresa geradora dominante no país, distribuiu medidores eletrônicos para seus 27 milhões de consumidores. Um investimento de mais de €2 bilhões e que, segunda a empresa, já proporciona uma economia de €500 milhões anuais.
O Brasil ainda está realizando experiências e projetos pilotos no setor, mas o interesse das empresas é grande e todo o processo deve se acelerar cada vez mais. Fornecedoras como a Eletropaulo, Light, Cemig, entre outras, apresentam iniciativas para a implementação da Smart Grid.
“Apesar dos altos investimentos, a economia com a maior automatização e eficiência da rede é inegável. Não há companhia que não queira desenvolver o sistema”, esclarece Campos.
Uma das iniciativas brasileiras no setor é o próprio laboratório NOTRE2, resultado da parceria entre o Mackenzie e a Associação de Empresas Proprietárias de Infra-estrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (Aptel). O laboratório tem como objetivo estimular, desenvolver e analisar novas tecnologias para o avanço da rede elétrica nacional. Vale destaque o trabalho do NOTRE2 com os equipamentos de PLC ou BPL (siglas para power line communication ou broad band over power line), que possibilitam o acesso à internet via rede elétrica.
Esses produtos já foram usados para facilitar a inclusão digital, sendo utilizados no Projeto Barreirinhas, no Maranhão, onde levaram internet para comunidades isoladas. O projeto segue em andamento, com o Barreirinhas 2, agora com uma maior quantidade de pontos. Mas essa mesma tecnologia, ou variações dela, poderá ser aproveitada para a comunicação entre os medidores inteligentes dos consumidores com a central fornecedora de energia.
“O Brasil está com um cenário bastante favorável para que avancemos rapidamente para uma rede mais inteligente. A Aneel abriu recentemente uma audiência pública sobre a implementação de medidores de baixa e média tensão, indispensáveis para a instalação da Smart Grid. Não estamos tão distantes de alcançar uma rede mais eficiente e confiável”, conclui Campos.
Fonte: Fabiano Ávila, da Carbono Brasil