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"À volta ao mundo sem emissão de carbono".

Países precisam reduzir em 80% as emissões de carbono

Os coordenadores do GT-2 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) apresentaram hoje no Ipea, em Brasília, um relatório sobre as mudanças climáticas que ocorrem no mundo e alertaram que o corte nas reduções de carbono são urgentes. Pela manhã, houve uma coletiva para a imprensa. Às 14h30, os cientistas fizeram uma apresentação no auditório do Ipea.

Segundo o coordenador do GT-2, Martin Parry, cientista inglês membro do IPCC, a redução global precisa ser de 80% das emissões de carbono até 2015. “Precisamos de uma redução drástica no nível de emissão de gases prejudiciais à camada de ozônio”, apontou Parry. O Grupo de Trabalho nº 2 foi o responsável pelo relatório sobre impactos, adaptação e vulnerabilidades ao aquecimento global.

Parry alertou que mesmo que as emissões acabassem hoje, o planeta continuaria aquecendo, mas as conseqüências seriam mais facilmente absorvidas, com acréscimo menor que 2 ºC na temperatura. No entanto, com a manutenção das emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura do globo pode chegar a 4 ºC até o final do século.

“Em resumo, tenho dois recados sérios: precisamos reduzir muito as emissões e precisamos reduzir já”, disse Parry. Um atraso de 10 anos em tomar qualquer medida já resultará no aumento de 0,5 ºC da temperatura média terrestre.
Parry alertou que, no pior cenário - o de aumento de 4 ºC da temperatura global -, 45% das espécies vegetais amazônicas não vão resistir e serão extintas. Haverá queda na produção de grãos e risco do aumento da desnutrição, doenças infecciosas e problemas cardiorrespiratórios. Para o pesquisador brasileiro Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Brasil pode contribuir com essa meta ao acabar com os desmatamentos. “Hoje o desmatamento é responsável por 55% das nossas emissões de gases de efeito estufa”, disse Nobre.

De acordo com o pesquisador, a agricultura é a segunda maior atividade responsável pelas emissões de gases na atmosfera. Ela representa 25% dessas liberações. Os 20% restantes estão ligados ao tratamento de resíduos e a atividades nos setores de energia e indústria. Veja esses dados com detalhe no quadro abaixo.

Estudo mostra que carbono zero será possível em 2090

O uso dos combustíveis fósseis pode ser eliminado no final deste século com as fontes solar, eólica, geotérmica e os biocombustíveis suprindo todas as necessidades de energia mundiais até 2090. É o que aponta um estudo produzido pela organização não-governamental Greenpeace em parceria com o Conselho Europeu de Energia Renovável.
Um relatório de 210 páginas, intitulado “[R]evolução da Energia: uma perspectiva para um mundo sustentável em energia”, explica que o investimento em tecnologias para eficiência energética pode cortar pela metade a necessidade de energia no mundo, em comparação com os cenários atuais.

Para dar início a essa mudança serão necessários US$ 14,7 trilhões até 2030 - valor 30% maior do que o a previsão da Agência Internacional de Energia, segundo a qual o mundo gastaria US$ 11,3 trilhões com investimentos em energia de qualquer maneira, com o foco muito mais voltado para carvão, petróleo e energia nuclear.

O estudo argumenta que essa diferença será mais do que compensada se houver um investimento agressivo em tecnologias para energia renovável e eficiência energética. A perspectiva é de que já em 2050 uma indústria de US$ 360 bilhões anuais esteja ativa e fornecendo metade da energia do mundo, promovendo cortes profundos nas emissões de carbono e reduzindo em mais de US$ 18 trilhões os custos com os combustíveis. Além disso, o relatório afirma que as despesas extras são justificadas, dados os custos econômicos e humanos do aquecimento global.

Na prática

Os autores do relatório defendem que a iniciativa se dê em três frentes: a primeira é a de eficiência energética. De acordo com o Greenpeace, 61% da eletricidade consumida no mundo é desperdiçada “em grande parte devido a produtos mal projetados”. Se nada for feito, o consumo de energia deverá crescer 33% até 2050.

Ao iluminar melhor as residências e escritórios com atitudes que conjuguem o aumento de eficiência dos equipamentos e a substituição de aquecedores de água por coletores solares, os países industrializados conseguirão reduzir o consumo de energia em 10%, permitindo que nações em desenvolvimento aumentem o consumo em 20%.

A segunda frente proposta é a de mudanças estruturais. Para reduzir drasticamente as perdas na transmissão de energia, o documento sugere a troca de grandes usinas por sistemas descentralizados, que utilizam a energia disponível no local. Para isso, telhados e fachadas das casas e edifícios deverão ser decorados com estruturas solares e contar com bombas geotérmicas subterrâneas. O relatório também defende fortemente a cogeração, ou seja, a captura do calor gerado em usinas de energia para aquecimento de edificações.

A terceira frente é a de redução do uso de energia pelos sistemas de transporte. O estudo propõe “uma mudança de estrada para trilho” como forma de melhorar e expandir o transporte público e incentivar o deslocamento de bens e produtos por trens ao invés de caminhões. O relatório sugere ainda que se determine padrões mais rígidos para eficiência nos combustíveis para veículos e a mudança de motores de combustão interna por elétricos.

Possível

O responsável pela campanha de energia renovável do Greenpeace Internacional e co-autor do relatório, Sven Teske, diz que as propostas são baseadas em projeções aceitas internacionalmente para o crescimento da população e da economia, e que a meta de infra-estrutura de carbono zero pode ser alcançada sem comprometer a expansão econômica.

Ele acrescenta que o cenário de 2090 é perfeitamente praticável, mesmo sem se recorrer a energia nuclear ou a tecnologias de captura de carbono.

O analista da consultoria New Energy Finance, Angus McCrone, diz que apesar de ser possível cortar emissões de forma mais rápida e profunda do que muitos governos esperam, é improvável que a visão de uma economia sem carbono apontada pelo relatório se torne realidade sem que se busque a energia nuclear, pelo menos durante a primeira metade do século.

“O tipo de progresso necessário é impraticável sem a energia nuclear”, entende. “É preciso trocar a carga de base da energia fornecida por combustíveis fósseis e, enquanto a disponibilidade das tecnologias de armazenamento de eletricidade é aprimorada, a nuclear será a opção mais plausível para os próximos 20 a 30 anos”, completa.

McCrone acrescenta que mesmo que a biomassa e as tecnologias geotérmicas possam avançar como reserva de base para energia, não poderão ser implantadas em escala suficiente em muitos países para substituir os fósseis. “Em países como a Islândia a energia geotérmica pode funcionar, mas em outros, como o Reino Unido, a substituição dos combustíveis fósseis por nuclear será obrigatória”.

Teske refuta o argumento de que a energia nuclear seria necessária para se fornecer uma reserva de apoio às variadas fontes de energias renováveis, insistindo que o aperfeiçoamento das tecnologias de energia renovável e de armazenamento de energia indica que as fontes nucleares não serão necessárias.

“A geração hidráulica, a energia solar concentrada com armazenamento, a biomassa e a geotérmica são todas tecnologias de grande capacidade e disponibilidade, enquanto energia das marés é previsível”, esclarece. “As únicas fontes de energia variáveis são a solar e a eólica”, explica Teske.

* Com informações de jornais internacionais.

Fonte: Redação do Akatu
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