Em 22 de setembro começou a Primavera no hemisfério Sul. Também foi a data escolhida para ser o “Dia Mundial Sem Carro”. Olho pela janela e vejo um lindo dia de sol em São Paulo, também vejo muitos carros passando na rua abaixo. Tempos atrás certamente me bateria uma certa indignação: “Afinal, porque estas pessoas não colaboram?”. Hoje faço uma reflexão sobre o compartilhamento da responsabilidade pelo uso do carro. Principalmente em uma sociedade que têm muitos recursos de mobilidade, seja física ou intelectual.
Quando eu era criança na casa de meus pais não tinha telefone. Era muito caro, tanto para instalar, como para manter. Íamos, em caso de emergência, ou quando nos mandavam um recado, à casa da “tia” Alba, uma vizinha e amiga da família que morava em frente. Os filhos da tia Alba eram quase sempre portadores de recados de alguém e para alguém na Vila Caledônia, onde morávamos, na Zona Sul de São Paulo.
Ainda naquele tempo, na casa de minha avó Hilda, que tinha um telefone, em uma conversa dela com alguém, ouvi o comentário: “Que maravilha isso, podemos discar diretamente para quem queremos falar, nem precisamos mais da telefonista”. Alguns podem pensar que tenho uma centena de anos, mas não, tenho 52. Assisti a esta e a outras revoluções tecnológicas da sociedade em apenas meio século.
Automóveis que bebiam um litro de gasolina por quilômetro rodado passaram a consumir um litro a cada quase 20 quilômetros, e vão ainda mais longe nos próximos anos, agira que a economia de gasolina chegou à publicidade dos carros.
E a internet? Esta era impensável com esta difusão na sociedade há pouco mais de 10 anos. Hoje uma pessoa pode interagir com qualquer outra, no mundo inteiro, bastando para isto uma conexão de internet, que nem precisa mais ter um fio, pode ser wireless.
Estamos em plena sociedade do conhecimento, onde a TV, que quando eu era criança tinha apenas 2 canais e transmitia umas poucas horas por dia, e agora tem centenas de canais com notícias, filmes, desenhos e guerras.
Então, porque temos de nos comportar em relação ao trabalho exatamente como nossos pais e avós? Não somos mais mineiros de carvão, que precisam cavocar juntos nas mesmas paredes das minas. Boa parte das pessoas saem de casa, onde têm computadores, telefones e TVs a cabo para ir trabalhar em computadores e telefones em outros cantos das cidades.
Vamos fazer uma reflexão, olhar em volta e ver quantas pessoas de fato precisam estar em locais de trabalho distantes de suas casas. Em que medida realmente é preciso jogar diariamente estas milhares de pessoas no trânsito, em transportes coletivos e automóveis, apenas para que se sentem em computadores e trabalhem o dia inteiro olhando para a telinha?
O “Dia Mundial Sem Carro” deve servir, também, para que possamos refletir sobre o modelo de economia e de sociedade que projetamos, que necessita de deslocamentos inúteis apenas porque as empresas ainda não são capazes de trabalhar com controles virtuais e por tarefas e não por horas controladas por cartões de ponto.
É preciso pensar mais a fundo quais são as reais necessidades de deslocamento pela cidade. Porque não fazemos mais reuniões virtuais, onde as pessoas se conectam através de “banda larga” e conversam sem a necessidade de emissões de carbono e acrescentar alguns metros a mais nas já longas filas de congestionamento dos grandes centros.
Recentemente li um livro chamado “O mundo é plano”, de Thomas Friedman, onde o autor fala do trabalho remoto prestado por telecentros da Índia a empresas norte-americanas e européias. Muito trabalho está sendo exportado por empresas que atuam em computadores do outro lado do mundo. Comecei a pensar porque os estados brasileiros com menos oportunidades de trabalho não podem ser a Índia do Sul/Sudeste do Brasil, com a prestação de serviços on line.
Na semana passada estava conversando com um amigo jornalista e ele me contou que seu filho está trabalhando em uma incubadora que busca inovação em aplicativos tecnológicos e em produtos e serviços. E como ele faz? Bom, monta uma estrutura de software e contrata programadores em diversas partes do mundo para construir o aplicativo. Alguns na Ásia, no Vietnã e Índia, por exemplo, outros na Europa e alguns ainda, na África.
Nenhuma destas pessoas pega um carro para ir trabalhar no escritório do filho deste meu amigo.
Claro que não são todas as atividades que permitem este tipo de relação, mas muitas podem ser assim e, com isso, tiraríamos das ruas um monte de gente que não precisa estar lá e que não querem estar lá.
Na Envolverde, empresa da qual sou sócio, temos uma equipe pequena. Somos 16 pessoas que trabalham cotidianamente para manter um site e nossa prestação de serviços a clientes. Apenas uma tem de obrigatoriamente ir ao escritório. As outras trabalham onde querem. Tem gente em Santos, em Atibaia, em Parati e em muitos bairros de São Paulo. E os leitores e clientes recebem seus serviços diariamente.
Falar de uma cidade com menos carros é, também, falar em uma sociedade com menos deslocamentos inúteis. Vamos pensar um pouco nisso.